Tem sido pouco mais do que confidencial o impacto causado pelas curtas e longas-metragens do cineasta português Ico Costa. Injusto porque todas elas amorosamente levitam no contacto com um espaço eleito e com as pessoas que nele habitam: a península que coloca a cidade de Inhambane a acenar para a cidade que está em frente, Maxixe; como Lisboa faz a Almada.
É a costa ocidental de África, é o sul de Moçambique. Com um lirismo contido, com empatia para com personagens que se expõem com uma frontalidade tal que o resultado, a intimidade, qualquer cineasta invejará. Passando constantemente do documental para a ficção, eis conversas sobre a vida sexual dos moçambicanos.
Pedimos contexto — e damos algum, neste podcast. Queremos programação na Cinemateca; até nos atrevemos a desejar por uma caixa de DVD. Tudo para colocar no mapa as curtas deste realizador e as longas O Ouro e o Mundo (2024), Balane 3 (2025), que esta semana chega às salas, e a primeira longa, Alva, (2020), a única filmada em Portugal.
Há, neste percurso, flutuações entre zonas de luz e zonas de sombra e mesmo de escuridão. Alguns filmes são sobre aquilo que Ico Costa sente sobre Moçambique: a alegria, a necessidade de futuro, a dança e o sexo, a juventude. Outros são sobre aquilo que o cineasta sabe: a ditadura do partido único, a corrupção, o horizonte interceptado. Mas vence em todos a ideia de que se as imagens sobre o país, quando as há, falam sempre da miséria e da pobreza, Moçambique é muito para além disso.
Balane 3 só chega agora às salas portuguesas, de forma discreta, como que a pedir que não se repare nele, porque em Abril do ano passado foi cancelado, juntamente com o seu realizador. A direcção do festival IndieLisboa, em vésperas do início da sua 22.ª edição, que aconteceria em Maio, retirava o filme da programação após uma denúncia de alegada violência cometida por Ico Costa sobre uma suposta denunciante que num email enviado à imprensa assinava como “Joana Sousa Silva”.
Esse gesto teve o efeito de uma condenação — fora do sistema judicial. Quase um ano depois, nem a dúvida se sanou nem a vítima, "Joana Sousa Silva", foi identificada. Ico Costa, que negou as acusações, apresentou uma queixa-crime para que o Ministério Público investigue e responsabilize a verdadeira pessoa por trás do mail “anónimo” e de “identidade falsa”. O PÚBLICO sabe que uma pessoa do sexo masculino está sob investigação.
Temos agora um filme. O que fazemos com ele?
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).
Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.
Vamos falar de cinema?
Sim, e vamos falar de outras coisas também.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Fler avsnitt av No escuro
Visa alla avsnitt av No escuroNo escuro med PÚBLICO finns tillgänglig på flera plattformar. Informationen på denna sida kommer från offentliga podd-flöden.
